
Maria de Jesus de Lima, sentada à porta do prédio devastado da delegacia: gerente de bordel e muita história para contar
O Jardim Bom Retiro, na região do Bairro Cristo Rei, na divisa entre o perímetro urbano e a zona rural de Ponta Grossa, é a imagem do abandono. Casarões semidemolidos e imóveis fechados remontam um cenário de devastidão. Não o chamam de um “lugar fantasma” por causa de seus poucos moradores, que ainda têm esperança de serem alcançados pelas benesses do poder público, como creche, escola e posto de saúde.
Nessa comunidade quase esvaziada, com identidade descaracterizada e perdida no tempo, uma senhora de 91 anos esbanja energia e simpatia. Não é exagero afirmar que Maria de Jesus de Lima é a última remanescente de uma geração da época de ouro do Bom Retiro, conhecido pela sociedade como Zona do Baixo Meretrício (ZBM). Ela foi gerente de bordéis no local e afirma ter muita história para contar. “Mas é bom não abrir a boca porque tem muita gente da cidade que tem um passado comprometedor. Os segredos não serão revelados”, diz, negando-se a prestar melhores detalhes.
Segurando a cuia e tomando chimarrão, Maria lamenta a transformação do espaço, revela ter saudades das noitadas e até dá entender que a vida na comunidade, hoje, é muito monótona. “Veja o que se transformou isso aqui. É um lugar esquecido, sem vida, e sem opção. Antigamente era diferente. Era muita agitação por causa das boates. Tinha muita gente e festa à noite toda. Aos finais de semana era muito bom”, relembra.
O local era tão movimentado que as autoridades policiais da época (década de 70) decidiram instalar uma delegacia para dar resposta imediata aos conflitos sociais. “Tinha viatura, inspetor e uma cela. Tudo era resolvido por aqui mesmo. Quem aprontava ficava preso. Hoje, a gente pode morrer de ligar para a polícia que ninguém vem. É uma barbaridade”, lamenta. As paredes da cadeia estão em pé. Maria mora ao lado da estrutura e salienta ter visto muita gente chegando ou saindo algemada dali. “Baderneiro não tinha vez”.
A mulher teve 12 filhos, mas 10 morreram antes de completar dois anos. Naquele tempo (40 anos atrás), observa, as crianças não tinham muito resistência física. “Na mesma hora que estavam brincando no quintal, caíam e morriam. Eu não sei o que acontecia”, anota. “Apesar desses dissabores, a vida antigamente era muito melhor. Havia mais alegria. O Bom Retiro já foi um bom lugar para morar. Hoje não tem mais graça”, exalta. Ela diz conhecer histórias de muita “figura” importante da cidade (empresário e político), mas prefere se calar.
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Comentários para esta notícia.
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...TENHO MAIS SAUDADE DO TEMPO QUE A ZONA ERA NA NOVA RÚSSIA!
A dona Maria deve ter muitas histórias para contar e todas comprometedoras, certamente. Excelente reportagem.
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